diário II - mães preocupadas
hoje é dia 28 de setembro e incrivelmente aqui estou eu completando mais um dia de diário. engraçado, raramente imaginei que voltaria a escrever no tumblr mas aqui estou.
não sei quanto tempo esse meu âmago de escrever durará, mas quero aproveitar cada segundo. ninguém entende o que se passa na minha cabeça e nem deveria, as pessoas não têm obrigação nenhuma de ouvir o quão depressiva eu tava na noite passada ou que fiquei escrevendo poesias pra alguém que nem se importa muito com elas. e realmente, ontem antes de dormir escrever algumas coisas fez com que meu peito pesasse menos e que minha cabeça não doesse tanto. aí acordei. eram seis horas da manhã de novo. levantei como normalmente, tirei meu pijama e me olhei no espelho. de repente uma tristeza enorme me invadiu: era hora de começar de novo.
“começar de novo, ainda bem!”, minha mãe é do tipo de pessoa que fala isso. muito religiosa e conservadora, reza muito e diz que é pra eu agradecer por todos os dias que levanto. só que eu nunca agradeço, nunca nem me importo em agradecer. qual é a graça de acordar e ter que ir trabalhar? a rotina? o frio de hoje? a chuva? e principalmente esta última, a chuva, me faz pensar em todas as pessoas que estão desabrigadas, nos animais que sofrem por conta do frio e também da chuva. e enquanto escrevo me lembro da cena do filme parasita, em que uma das personagens agradece pela chuva quando na verdade nem imagina o quão desastrosa uma chuva pode ser. então, “agradecer pra quê?” - eu me pergunto.
voltando ao meu fatídico dia: me arrumei, coloquei um chiclete de não-sei-o-quê na minha boca, provavelmente de blueberry ou algo assim e fui trabalhar. peguei um uber, não fui de ônibus por conta da chuva. veja, é um privilégio mesmo andar de uber em tempos tão difícieis como esses, em que tudo é muito caro. mas sim, fui de uber e paguei exatamente vinte e quatro reais - que seja - eu pensei. uma coisa boa é que o motorista do uber foi muito gentil e fiquei feliz de ter estado nessa viagem de carro, ainda que por meros cinco ou seis minutos. bem, cheguei no trabalho e lá estava ele: o fulano que tinha dito anteriormente, nos outros diários. dando nomes aos bois, o professor. como de costume olhei pra ele e como sempre ele estava muito bem vestido e agasalhado. por um momento invejei da vestimenta, já que estava muito frio. trocamos olhares momentâneos, nada muito profundo. nada que eu quisesse que fosse muito profundo. quanto mais eu fujo dele, melhor meu coração fica. acho que ele nunca vai entender como eu me sinto.
e fica difícil pra quem lê esses pequenos textos em que relato minha vida nada fora do comum o que exatamente tem acontecido entre eu e o professor. primeiramente devo dizer que é muito esquisito referir-me a ele como “professor”, mas não quero relatar nomes e nem nada, ainda que isso não seja algo de extrema relevância. saímos algumas vezes, falamos coisas um pro outro que talvez não deveriam ter sido ditas (coisas boas, que me arrependo de ter dito e acredito que ele também), nos beijamos. sim, como nos beijamos. e ele gosta de beijar, de selinho. eu não gosto de beija-lo no nosso ambiente de trabalho, nunca gostei. mas ele nunca se importou se outros colegas de trabalho vissem ou até mesmo alun@s (mesmo conhecendo a linguagem neutra é do meu gosto usar esse arroba, ta?). bom, não me importa muito relatar o que aconteceu até aqui. fato é que ele não vai saber mesmo como eu me sinto nem a metade das baboseiras que eu escrevo pra ele, muito embora ele já imagine tudo isso.
desde meio de julho, pra ser mais exata, trocamos mensagens e nos vemos na escola. ele me trata com carinho e sempre que pode quer me dar a mão quando sentamos um do lado do outro. o que nesses últimos dias tem sido estranho e não aparenta ser um ato genuíno vindo da parte dele. não sei se são paranóias da minha cabeça, algo tão bobo como dar as mãos tornou-se uma coisa extremamente dolorosa pra mim. porque tudo tem que ter significado. teria. é simbólico. ou deveria ser, também. já foi um dia. sabe, não sei porquê trazer tudo isso à tona no relato de hoje, mas quis contextualizar a mim mesma o que vem acontecendo na minha vida.
depois de tantos devaneios, volto para o meu dia de trabalho. com muita chuva, montei (ou tentei montar) um projeto de cápsula do tempo com os meus alunos. não deu muito certo. no final eles se desinteressam e foram jogar truco, mas consegui trocar uma ideia com um pessoal que gosta de poesia como eu. mostramos uns aos outros nossas poesias e foi realmente gratificante e incrível ver que ali nascem escritores natos. pessoas que usam figuras de linguagem de maneiras incríveis, concordância verbal e nominal corretas, vírgulas e tudo o que se possa imaginar. todo esse conhecimento é poético e não exige que você seja um mestre da língua para dominar. que se dane a gramática. eu quero poesia. e quero ensinar com ela.
e foi com essa poesia, a minha, que eu tentei escrever sobre o professor. e saíram coisas que nem eu mesma imaginava. o meu medo de se aproximar e consequentemente me afligir com a frieza dele. hoje mesmo eu vivi isso. o professor é uma pessoa fria e não falo do meme do frio e calculista como uma fachada, mas ele é - de fato - uma pessoa fria. que não esboça sentimento algum. e que se um dia esboçou por mim, como antes eu sentia, hoje já não vejo mais. e tudo isso aconteceu dentro de alguns bons dois ou três meses. e foi o bastante pra que eu sentisse tudo aquilo que havia morrido em mim há mais ou menos um ano. a química, o fogo de uma paixão e a curiosidade por aquilo que é novo. e vocês precisam saber que eu detestava esse cara. tá? detestava. achava ele estúpido e petulante. começamos a conversar e trocar faíscas todo dia e vou resumir assim: ele foi pra itália > eu estava namorando > ele voltou da itália > terminei meu namoro > ele terminou o dele > saímos > vivemos algumas coisas > dias atuais. e os dias atuais são repletos de frieza e muita ansiedade. ansiedade da minha parte, não sei da dele. e não ansiedade por causa dele. tive uma crise bem feia no último sábado causada por gatilhos bem alarmantes e que me fazem perder o controle. não vem ao caso. ou vem. sei lá. voltei a tomar uma medicação, chama quetiapina. a dosagem é pouca, 25mg. não sei se pode ser efeito placebo ou não, mas perdi a fome e também me sinto extremamente apática.
a crise de ansiedade resultou em desastres no meu cérebro. de terça pra cá as coisas tem piorado entre eu e o professor. fazer o quê. o bom é que desde o começo fui bem clara quanto ter um relacionamento. sempre fui direta e até mesmo grossa: não quero namorar com você. veja como escalamos de um “paixão boba por colega de trabalho” para “eu não quero um relacionamento”. sim, tudo isso aconteceu exatamente como estou contando. e foi pra ser assim. desde terça, como disse, o clima está frio e nós também. no fundo eu sinto que ele nem se importa se to bem ou não porque como eu disse, ele é alguém frio que se importa com o próprio bem-estar. critico ele sempre com um tom de orgulho, mas tudo que eu queria é que ele me notasse. pode notar, mas não como desejo. eu desejo um olhar de ternura, mas a questão aqui é que as minhas projeções estão fora do alcance dele e isso não é culpa dele. diariamente vou desconstruir a imagem que criei sobre ele e logo evitarei outro desastre e outra fenda no meu coração. há uns tempos fechei uma fenda enorme e eu não quero abrir outra. ainda mais desse jeito.
tendo relatado meu dia, caminho até o final dele. saindo da escola e evitando de esperar o ônibus no mesmo ponto que ele - por motivos que para mim parecem óbvios mas que para ele estão longe de parecer -, pedi um uber e fui até um salão modelar a minha sobrancelha. conversei sobre política com a minha cabeleireira. ela é nordestina e gosta muito do lula. ouvi a história dela e achei muito bonito. também gosto do lula. gostaria de estudar mais sobre as suas propostas de governo, mas acredito que ele seja uma opção muito boa pro brasil caótico que a gente tá vivendo. minha cabeleireira chama marlene. ela me atende desde que eu tinha doze anos. seu trabalho vale cada centavo. conversamos sobre amor, conversamos sobre o que é dizer “eu te amo” a alguém. comentei que não digo que amo todo mundo. dei um abraço nela. disse que a amo, mesmo sem querer. ela me abraçou de volta e disse que me amava também. ao passo que tudo isso acontecia, não percebi que eram quase duas horas da tarde. meu celular descarregado. não havia encontrado minha mãe ainda. foi aí que pensei: “minha mãe”, “minha mãe…”, “MINHA MÃE”. pois é, eu estranhei não ter nenhuma ligação. achei até que ela não tivesse em casa, por isso o motivo de não ter ligado. mas não era isso. na verdade, ela tinha ligado MUITAS vezes e eu não vi as notificações. primeiro porque ela me ligou pelo instagram. quando parei pra ver, minha família tava maluca me procurando, achando que eu tinha morrido ou algo assim. por uma hora eu meio que sumi e nem notei, mas foi o suficiente pra fazer minha avó chorar quando eu cheguei em casa e minha mãe ficar brava comigo.
minha vó tem passado por umas coisas também que não são da minha alçada, mas sei que essas coisas tem sido difíceis pra ela. bem, ela me viu e chorou. teve uma crise e me abraçou como nunca antes. eu não tenho costume de abraçar minha vó. muito menos a minha mãe. na verdade, eu e minha mãe nem nos abraçamos, não nos falamos muito. ela só disse que ficou preocupada, como sempre e aquela fala fez eu me sentir sufocada, mas ao mesmo tempo fez eu entender que ela é uma mãe. minha vó é mãe. mães se preocupam.
por um momento, eu não quis ser procurada durante a tarde. eu não quis receber mensagens do professor, não quis ligações da minha mãe. um número novo me proporcionou coisas boas, que foi não ser bombardeada com notificações o tempo todo. eu gostei de sumir e não notar que fiz isso. me senti desconectada da própria vida e do meu sofrimento, digo, esse sofrimento que tenho carregado há alguns dias. ele nem deve ser meu.
ver minha vó chorando hoje e talvez até a minha mãe, que tenho procurado evitar, preocupada, tenha me feito entender que as vezes a gente deve agradecer mesmo. agradecer por alguém querer saber se a gente tá bem, se comeu, se precisa de algo. tenho me sentido sozinha, mesmo com muitas pessoas à minha volta. o professor tem me machucado. e nem é culpa dele. é minha culpa. então deixarei o tempo curar. na verdade o que ajuda a curar são abraços sinceros, como o da minha vó hoje. não entendi toda a comoção, eu não me importo de sumir e ficar horas fora, sem ninguém me procurar. nunca fiz isso, mas ultimamente é o que mais tenho vontade.
se um dia eu for mãe, eu vou entender - essa é a fala da minha família. e vou mesmo, talvez. eu quero que meu filho ou minha filha se sintam amados. sem sufocar, nem invadir a privacidade. quero que eles se sintam especiais e não passem pelas coisas que eu passo, pelas coisas que passei hoje.
vivi um dia difícil (dentro da minha cabeça) mesmo, realmente, tendo diversas coisas a agradecer. e tudo bem também.
um dia eu vou ser mãe. um dia eu vou entender. um dia vou agradecer todos os dias e rezar pra são judas tadeu, como a minha mãe faz. um dia. quem sabe.
ps: hoje foi um dia bom, já que minha banda favorita lançou uma música nova depois de cinco anos. então, apenas escutem: this is why, paramore.